Frei Galvão defensor da liberdade religiosa

Há 10 anos, o Papa Bento XVI canonizou Santo Antonio de Sant'Anna Galvão, frade franciscano que viveu a santidade na cidade de São Paulo
Publicado em: 18/05/2017 - 14:15
Créditos: Jornal O SÃO PAULO - Edição de 17 a 23 de maio

Por Fernando Geronazzo

Há 10 anos, Santo Antônio de Sant’Anna Galvão foi canonizado pelo Papa Bento XVI, na histórica missa celebrada no Campo de Marte, em 11 de maio de 2007. Na quinta-feira, 11, o arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, presidiu uma missa no altar – recentemente restaurado – da capela privada onde Frei Galvão celebrava diariamente com as monjas concepcionistas do Mosteiro da Luz, no centro da capital. Esse mosteiro, onde estão sepultados seus restos mortais, foi fundado e construído pelo próprio Santo.

Na homilia, Dom Odilo destacou que Frei Galvão viveu a santidade em São Paulo, e que para a Igreja declará-lo santo foi preciso que sua santidade fosse antes reconhecida nos locais onde ele viveu e atuou. “Muitas vezes, nós dizemos que alguém é santo porque fez muitos milagres em vida. Mas, mesmo quando o santo não fez milagres, mas viveu a vida santa, conforme os mandamentos de Deus e a dignidade da vocação cristã, isso é santidade”, afirmou.

Nascido em Guaratinguetá (SP), em 1739, filho de Antônio Galvão de França e Izabel Leite de Barros, Frei Galvão cresceu num ambiente profundamente religioso. Aos 13 anos, foi enviado para estudar no Seminário da Companhia de Jesus, dos Padres Jesuítas, na cidade de Belém de Cachoeira (BA). Aos 21 anos, ingressou no noviciado da Ordem dos Frades Menores, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, fez a profissão solene dos votos religiosos, sendo ordenado sacerdote em 11 de julho de 1762.

Intrépido pastor

Depois de ordenado, Frei Galvão foi enviado para o Convento de São Fran- cisco, em São Paulo, para aperfeiçoar os estudos e praticar o apostolado. E foi no apostolado que o franciscano começou a destacar-se por suas virtudes e empenho pastoral, em um período em que a liberdade religiosa era muito ameaçada pelo Império.

“Essa época era fortemente demarca- da pela presença do Marquês de Pombal, cuja filosofia política era profundamente marcada pelo iluminismo. Nada podia se multiplicar na Igreja sem o aval do governo, como nomeações de bispos, abertura de vagas nos seminários para a formação de novos padres. Tudo era controlado pela Coroa”, explicou, ao O SÃO PAULO, o Padre José Arnaldo Juliano, historiador e capelão do Mosteiro da Luz. Foi o Marquês de Pombal que, em 1759, expulsou os jesuítas do Brasil.

Segundo Padre José Arnaldo, Frei Galvão reagiu a essa restrição da liberdade religiosa como um bom frade franciscano, ou seja, visitando as famílias e participando da vida da cidade também

No âmbito social e político. “Ele chegou a ser, inclusive, membro da Academia Paulista de Letras”, recordou o Capelão. “Frei Galvão proclamava o Evangelho não apenas na palavra, mas na prática. Ele era totalmente à frente de seu tempo”, acrescentou o Padre.

Recolhimento da luz

Designado confessor do Recolhimento Santa Teresa, em 1770, o franciscano conheceu Irmã Helena Maria do Espírito Santo, religiosa de profunda oração e grande penitência, que afirmava ter visões pelas quais Jesus lhe pedia para fundar  um  novo  Recolhimento, isto é, uma casa onde mulheres viviam de maneira comunitária, dedicando-se à oração, sem, no entanto, professarem os votos religiosos, uma vez que o Marquês de Pombal não permitia fundações de casas religiosas.

Após estudar tais mensagens e discerni-las com o auxílio de pessoas sá- bias e esclarecidas, Frei Galvão fundou um recolhimento em 2 de fevereiro de

1774, dedicando-o a Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência. “Frei Galvão era sensível ao fato de que havia vocações e que o governo não podia obstruir seu florescimento”, explicou Padre José Arnaldo. Esse Recolhimento se tornou um mosteiro apenas em 1929, sendo incorporado à Ordem da Imaculada Conceição (concepcionistas).

Perseguições

No ano seguinte, Irmã Helena, tendo adoecido gravemente, morreu. Frei Galvão tornou-se, então, o único apoio para a comunidade. Nesse mesmo período, o novo capitão-general da Capitania de São Paulo, Martim Lopes Saldanha, obrigou o fechamento do Recolhimento. O Santo obedeceu a decisão. Porém, as recolhidas, que não tinham aonde ir, permaneceram escondidas na casa, confiantes na providência divina. Um mês depois, graças à pressão do povo e do bispo local, o Recolhimento foi reaberto.

Durante 14 anos (1774-1788), Frei Galvão se empenhou pessoalmente na ampliação das instalações do Recolhi- mento, cujas vocações não paravam de crescer. Por outros 14 anos (1788-1802), dedicou-se à construção da igreja, inaugurada em 1802.

Em 1781, após defender um soldado que havia sido condenado à morte por uma pequena ofensa ao filho do Capitão-General, Frei Galvão foi transferido para o Rio de Janeiro por pressão das autoridades. A população, no entanto, se levantou contra a ordem, que acabou sendo revogada.

Defensor da Imaculada

Como bom franciscano, Frei Galvão era grande devoto de Nossa Senhora e propagador de sua imaculada conceição, que ainda não havia sido proclama- da como dogma de fé, mas por séculos era difundida pelos frades. Tanto que os frades, ao professarem os votos, faziam um juramento de se empenharem na defesa da imaculada conceição da Virgem Maria.

De acordo com a biografia documentada que integra seu processo de canonização, a maturidade espiritual “franciscano-mariana” de Frei Galvão foi expressa por meio de sua consagração a Nossa Senhora como o seu “filho e escravo perpétuo”, feita em 9 de novembro de 1766.

Defensor da virgindade da Mãe de Jesus antes, durante e depois do parto, Frei Galvão difundiu essa convicção especialmente nas famosas pílulas confeccionadas e distribuídas pelas monjas do Mosteiro da Luz.

Certo dia, Frei Galvão foi procurado por um senhor aflito, porque sua mulher estava em trabalho de parto e em perigo de morte. O Frade escreveu em três papeizinhos o versículo do Ofício da Santíssima Virgem – Pos partum Vir- go, Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis (Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta: Mãe de Deus, intercedei por nós) – e entregou ao homem. Após a esposa dele ingerir as pílulas, o parto ocorreu normalmente. Caso idêntico aconteceu com um jovem que sentia fortes dores provocadas por cálculos na vesícula.

Morte

O fim de sua vida foi no Recolhimento da Luz, depois de obter autorização de seus superiores, devido ao fato de não ter mais forças físicas para se deslocar diariamente do Convento Franciscano para atender às religiosas. Ele passou a morar em um cômodo no fundo da igreja, atrás do sacrário até sua morte, em 23 de dezembro de 1822.

Na homilia da canonização de Frei Galvão, o Papa Bento XVI afirmou que a fama da sua imensa caridade não tinha limites: “Pessoas de toda a geografia nacional iam ver Frei Galvão, que a todos acolhia paternalmente. Eram pobres, doentes no corpo e no espírito que lhe imploravam ajuda”.

(Com informações da Ordem dos Frades Menores)