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01/07/2008
TENDÊNCIAS/DEBATES
Folha de São Paulo - 1 de julho de 2008
O homem médio
DAVID OLIVEIRA DE SOUZA
O processo mostra que padre Júlio foi vítima de violência psicológica contínua.
É preciso entender por que não reagiu logo
HÁ TRÊS semanas foram libertadas as pessoas acusadas de extorquir o padre Júlio
Lancellotti. A sentença, proferida pelo juiz Julio Caio Farto Sales, surpreendeu
pela inconsistência dos argumentos.
O magistrado ignora fatos relevantes, como a conclusão do inquérito policial que
reconheceu a ocorrência de extorsão e o pedido de condenação dos réus pelo
Ministério Público de São Paulo.
O que mais assusta, porém, é a falta de análise do contexto em que os acusados
agiram, pois permite interpretações distorcidas, como a que faz o juiz na
sentença ao concluir que não é compreensível que um "homem médio" -no caso, o
padre Júlio- tenha aceitado a extorsão por tanto tempo.
É curioso o fato de que, para o referido juiz, um "homem médio" jamais aceitaria
uma extorsão por longo período, porém, de bom grado abriria mão das economias de
toda uma vida por razões frívolas.
Não se sabe o que o meritíssimo definiu com o termo "homem médio", mas tudo
indica que se referiu à média dos homens da sociedade, faltando especificar sob
que aspecto trata-se a vítima de um homem médio. Econômico, social, moral,
educacional, religioso? Poderemos ter um homem médio na educação, mas abaixo da
média na dimensão econômica? Um homem médio no porte físico, mas acima da média
na dimensão moral?
Qualquer que seja a resposta, todo homem médio pode ser vítima de violência e,
uma vez o sendo, pode reagir de formas diversas, sobretudo se a violência em
questão for psicológica.
Segundo o Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde da Fundação
Oswaldo Cruz, a violência psicológica consiste em agressões verbais ou gestuais
com o objetivo de aterrorizar, rejeitar, humilhar a pessoa, restringir sua
liberdade ou ainda isolá-la do convívio social. Tem efeito sobre a auto-estima e
a autoconfiança. É uma modalidade de violência pouco reconhecida e notificada.
No entanto, está na base de problemas de saúde como transtornos de ansiedade e
depressão.
O processo mostra que padre Júlio Lancellotti foi vítima de violência
psicológica contínua.
É fato conhecido que a violência psicológica pode perpetuar-se por longos
períodos, principalmente se houver vínculo familiar entre o algoz e sua vítima.
São comuns abusos psicológicos de pais contra filhos, de filhos contra pais ou
entre empregadores e empregados.
O vínculo deixa a vítima aprisionada num conflito mental em que espera, sem
sucesso, a mudança de atitude de seu agressor, o qual, por sua vez, alimenta
essa esperança com interregnos menos agressivos, até voltar a ser violento.
No caso específico de Júlio Lancellotti, somam-se outras dimensões à cena que
justificam o fato de a denúncia formal ter ocorrido apenas três anos após o
início da extorsão (a informal fora feita dois anos antes, ao governador, ao
secretário-adjunto da Segurança e ao comandante da Polícia Militar): a dimensão
religiosa, que fortalecia a crença na mudança de atitude do agressor; a dimensão
histórica, do cidadão que dedicou anos de sua vida à defesa de uma sociedade
menos punitiva e mais cuidadora dos jovens infratores, fazendo com que a
condenação do réu representasse simbolicamente a derrota de sua causa; a
dimensão biológica, que fez com que reagisse de forma depressiva às ameaças
perpetradas contra sua vida.
Nenhuma dessas dimensões pode ser ignorada e, se acrescidas dos fatos
evidenciados no processo, não deixam dúvidas de que Júlio Lancellotti foi vítima
de extorsão continuada.
Embora médico de Júlio Lancellotti, escrevo este artigo individualmente, como
cidadão que acompanha a agenda de direitos humanos em meu país.
Um elemento final e muito destacado é o fato de padre Júlio não ter até o
momento se pronunciado publicamente em defesa própria, ao passo que tantas vezes
o fez em favor dos excluídos. O silêncio do padre reproduz a atitude histórica
de muitos religiosos em momentos de dificuldade e remonta até o referencial
maior dos cristãos, a própria figura de Jesus, a quem Pilatos perguntou
insistentemente: "Nada respondes? Vê quantas coisas testificam contra ti?". E
Jesus nada respondeu.
DAVID OLIVEIRA DE SOUZA , 32, é médico do padre Júlio Lancellotti, professor de
saúde coletiva da Universidade Federal de Sergipe e trabalha para a Organização
Médicos Sem Fronteiras. É especialista em medicina de família e comunidade pela
UERJ, especialista em clínica médica pela UFRJ e mestre em relações
internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris.
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