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13/02/2008

 

Defender a vida

D.Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo

 

A Campanha da Fraternidade promovida anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta, em 2008, um tema da máxima importância: Fraternidade e defesa da vida; o lema é: Escolhe, pois, a vida  (cf  Dt 30,19). A vida é um bem para todos e o seu desprezo é uma ameaça para todos. Por isso mesmo, a promoção da dignidade da vida e  seu amparo em situações de risco requerem a participação solidária de todos os membros da comunidade humana. Defender a vida é questão de justiça e fraternidade.

 

            A vida, nas suas múltiplas formas e manifestações, é o bem mais precioso da face da terra. Não fomos nós que criamos a vida, mas podemos cuidar dela e também temos o tremendo poder de destruí-la pelo descuido imprudente, ou pela agressão direta. Muitas formas de interferência no ambiente e na natureza trazem sérios riscos à sobrevivência de seres vivos, vegetais e animais. A degradação ambiental, a destruição do verde, a contaminação das águas e do ar desencadeiam mecanismos que podem colocar em perigo a própria subsistência da vida no nosso planeta. É o caso de perguntar: que tipo de mundo e de futuro estamos preparando para as gerações que virão depois de nós?!

 

            Esta Campanha da Fraternidade, porém, não tem seu foco principal na ecologia, mas na vida humana, em relação à qual as preocupações não são menores. A pobreza extrema de amplas camadas da população e a falta de perspectivas para uma solução eficaz para esse problema deixam a vida humana exposta a situações de grave precariedade. A violência endêmica e o crime organizado ceifam numerosas vidas, muitas delas, lamentavelmente, em plena flor da juventude! Há poucas semanas, corria a notícia que, nas últimas 3 décadas, houve mais de um milhão de mortes violentas no Brasil. São dados impressionantes para um país que não está em guerra declarada contra ninguém. Submetida à lógica do mercado e da vantagem econômica, ou abandonada à violência cega ou calculada, a vida humana acaba valendo bem pouco.

 

            Também é impressionante o número de abortos realizados no Brasil todos os anos. Trata-se de seres humanos inocentes e indefesos, rejeitados e excluídos do banquete da vida. Sendo silenciosas e invisíveis, essas mortes violentas nem mesmo constam nas estatísticas oficiais. Como enfrentar esse problema? A questão do aborto não deve ser imediatamente ligada a posições de fé religiosa ou a embates ideológicos, pois envolve o mais elementar direito humano, que vale para não-crentes e para crentes em Deus, da mesma forma: o direito à vida.

 

E por complicações decorrentes de abortos clandestinos mal-feitos, lamentavelmente, muitas mulheres também acabam perdendo a vida. Legalizar o aborto  seria a solução para salvar a vida dessas mulheres? É o que alguns pretendem. Mas essa solução seria cruel e imoral, pois ambas as vidas são preciosas. Valorizar e preservar a vida da mãe e do filho, não seria esta a política pública mais urgente e adequada? Evidentemente, a solução também passa pela educação, para que as pessoas sejam devidamente respeitadas; a prevenção para evitar a disseminação de doenças é necessária; mas será incompleta, se não for acompanhada também pela educação moral, para comportamentos sexuais respeitosos e responsáveis, quer em relação à pessoa diretamente envolvida e à sociedade, quer em relação ao novo ser humano que pode resultar de uma relação sexual.

 

            Ameaça não menos preocupante para a vida humana é a eutanásia, que se caracteriza como uma intervenção intencional e direta para suprimir a vida humana. O ser humano, desde o início da história, sempre teve a tentação de se tornar senhor absoluto da vida e da morte. Mas é fundamental que as lições da história sejam aprendidas; onde o Estado abdica do seu papel de tutelar a vida dos cidadãos, especialmente dos mais frágeis e indefesos, a lei da selva passa a imperar. E onde se concede ao Estado, ou ao próprio cidadão, um poder de vida e de morte sobre as pessoas, a violência e a tirania acabam bem depressa com as conquistas da civilização.

 

            Proteger, defender e promover a vida humana é tarefa primordial do Estado; sobretudo, a vida indefesa e frágil, como a dos seres humanos ainda não-nascidos, das crianças, idosos, pobres, doentes ou pessoas com deficiência. É ação política por excelência, que não deverá ser orientada apenas pelo interesse de grupos, mas requer o envolvimento solidário de todos os cidadãos e organizações da sociedade. A defesa da vida e da dignidade dos outros seres humanos contra toda forma de agressão, prepotência ou aviltamento interessa a toda a família humana; é manifestação suprema de fraternidade.

 

            “Escolhe, pois, a vida” – é o lema tomado do livro do Deuteronômio, na Bíblia. O povo hebreu, libertado da escravidão do Egito mediante a intervenção prodigiosa de Deus, é colocado por Moisés diante da grave alternativa: escolher a vida e um futuro esperançoso para si e seus descendentes, permanecendo fiel aos mandamentos de Deus, ou escolher a morte, andando por outros caminhos e servindo a “deuses” fabricados por mão humana. A Campanha da Fraternidade lembra que esta mesma escolha fundamental também precisa ser feita hoje por nós: a vida, optando por aquilo que contribui para a sua defesa e dignidade, ou a morte, optando por caminhos que descuidam e destroem a vida. Nossas escolhas têm conseqüências e nos responsabilizam eticamente, enquanto seres racionais e dotados de vontade livre.

 

            Esta é a grande questão posta pela Campanha da Fraternidade de 2008. Das nossas escolhas depende a vida humana e o futuro da vida na Terra, nossa casa comum. Esta decisão envolve a solidariedade e a fraternidade de toda a comunidade humana.

 

Publicado em O ESTADO DE S. PAULO

6/2/2008