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Encontro
com o
Pastor

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
Direitos humanos – 60 anos
A Organização das Nações Unidas (ONU) comemora,
neste ano, o 60º aniversário da Declaração Universal
dos Direitos Humanos. Em 1948, a humanidade saía de
um grave conflito que envolveu boa parte das nações,
deixando um rastro de destruição, sofrimentos e
morte. Como se o terror da guerra não bastasse, os
regimes totalitários que foram os pivôs da 2ª.
grande guerra mundial promoveram naquele período de
nossa história recente uma série de atrocidades
contra pessoas, muitas vezes, por mero preconceito
racial, cultural e ideológico. A solene Declaração
Universal dos Direitos Humanos foi o fruto de uma
decisão política importante: pela primeira vez na
história da humanidade houve um consenso tão amplo
entre nações e seus governantes a respeito de
princípios relativos à pessoa humana a serem
acolhidos e respeitados por todos. Triunfava a
convicção de que nenhum Estado e poder totalitário
deveria mais esmagar a pessoa humana, que está na
origem dos Estados e deve ser a finalidade da
existência dos Estados e regimes; daí por diante,
esses passariam a ser avaliados pelos demais em
função do respeito, ou não, dos direitos
fundamentais da pessoa humana. A Declaração foi um
marco ético importantíssimo na convivência entre os
povos. O reconhecimento dos direitos fundamentais da
pessoa humana, de fato, é sinal da sensibilidade e
da consciência ética dos povos e seu efetivo
respeito denota o grau de civilização a que chegaram;
a negação teórica ou prática desses direitos, pelo
contrário, assinala o caminho do retrocesso à
barbárie. A Declaração da ONU já aconteceu há 60
anos; resta saber se ela já está plenamente
assimilada na vida cotidiana dos povos e países
signatários. É inegável que houve progressos na
cultura dos direitos humanos; no entanto, ainda há
muito por fazer. E, sobretudo, é preciso vigiar para
que não haja uma relativização dos direitos humanos.
Através do processo de educação formal e informal, a
preocupação e a sensibilidade em relação aos
direitos humanos precisa ser passada às novas
gerações. Infelizmente, sinais preocupantes de um
retrocesso na questão dos direitos humanos aparecem
na violência difusa, gratuita e cotidiana contra
cidadãos indefesos, no desrespeito a pessoas
motivado por preconceitos de vários tipos, na
afirmação exacerbada de direitos subjetivos contra
direitos primários do próximo; os discursos em favor
da legalização o aborto e da eutanásia
esquecem da afirmação do primeiro e mais undamental
direito de cada ser humano, que é o direito à
vida... as também preocupam a exploração do
trabalho infantil e do trabalho escravo, a
exploração sexual de crianças e adolescentes, bem
como o tráfico de drogas, de armas e de pessoas. Em
tempos de flagrante violação os direitos humanos, a
sua defesa e afirmação consegue recolher ade-
sões com certa facilidade. Assim conteceu no Brasil
no período da itadura e da repressão política.
Em São Paulo tivemos organizações e
iniciativas muito atuantes na defesa e na promoção
dos direitos humanos. Corajoso defensor da dignidade
ferida e negada de tantas pessoas foi Dom Paulo
Evaristo Arns, nosso redecessor nesta Arquidiocese.
A Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese
desempenhou um papel relevante, assim como a
imprensa. Em tempos de paz nem sempre acontece a
mesma coisa e o risco é o entorpecimento das
consciências, sem a mesma capacidade de reação
diante dos fatos. A dignidade e o direito à vida de
seres humanos frágeis, idosos, com alguma
deficiência ou ainda não nascidos é violada com
discursos enganosos, que tratam da eliminação e da
supressão da vida desses seres humanos como um
“direito” de alguém outro... ou a partir da vantagem
e da utilidade de semelhantes medidas para a
sociedade. Faz-se, pois, necessário manter viva a
memória dos acontecimentos e também promover a
vigilância de toda a sociedade sobre violações novas
desses direitos fundamentais. É importante que as
novas gerações sejam familiarizadas com a Declaração
dos direitos humanos e com a efetiva acolhida desses
princípios na vida pessoal e social. A violação de
um desses direitos deveria merecer sempre uma
reflexão atenta da parte de pais e educadores, bem
como das nossas organizações eclesiais e pastorais.
A própria Igreja quer ser defensora e promotora da
dignidade humana, uma vez que isso decorre da sua fé
e da sua pregação sobre a pessoa humana à luz do
desígnio de Deus.
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