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Construção da igreja Santa Paulina em Heliópolis |
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Uma Igreja para a maior favela da cidade de São Paulo Regina Céli de Albuquerque Machado
A primeira igreja católica em Heliópolis, dedicada à primeira santa brasileira, Santa Paulina, pode servir de exemplo para tantas outras igrejas pelo Brasil afora. Muito sonho, tantas necessidades para pouco espaço e pouca verba. Só com planejamento, projetos, orçamentos, cronogramas, é possível construir uma igreja de qualidade e com poucos recursos. Caso contrário o máximo que se consegue é deixar de herança uma obra cheia de problemas técnicos e que não responde às exigências litúrgicas.
Cinco objetivos básicos nortearam a concepção do projeto. A funcionalidade a serviço de uma liturgia participativa e dinâmica. O cuidado com o meio ambiente em todo o processo desde a obra até a manutenção. A inclusão dos portadores de deficiência física. A devolução à comunidade de um espaço comunitário de lazer, com paisagem e ventilação. O respeito à realidade cultural local.
O programa feito junto com a comunidade pede mais espaços do que aparentemente o terreno comporta. Salão de culto com capacidade para 400 pessoas. Sacristia. Capela do batismo. Capela do Santíssimo. Sala de som. Estacionamento. Salão de festas e reuniões. Secretaria. Sala de atendimento. Arquivo. Banheiros. Mezanino. Sala de Reconciliação.
O projeto da igreja de santa Paulina foi apresentado para um concurso internacional de construção sustentável. A construção sustentável compreende 5 elementos chaves. O aspecto social da obra, o econômico, a estética, a ética e a inovação tecnológica. Apresentamos aqui o trabalho enviado para o concurso, que esperamos servir de exemplo para quem está pensando em construir ou reformar sua igreja.
Impacto contextual e estético do projeto.
As construções na favela de Heliópolis são feitas, a grande maioria, sem planejamento. A obra da igreja de Santa Paulina servirá de exemplo de obra planejada e por isso econômica, bonita e rápida.
O respeito com o meio ambiente e com o deficiente físico, elementos importantes do projeto, são exemplos de ética sendo traduzida em estética.
A favela receberá de volta uma respiração natural e uma paisagem escondida pelo adensamento. Ao se elevar a construção, deixando livre o andar térreo, surge nos fundos do terreno uma paisagem livre que se estende por alguns quilômetros onde pode até mesmo ser visto o por do sol a partir da rua.
A concepção de todo o edifício está de acordo com a liturgia renovada pelo Concílio Vaticano II que pede simplicidade e uma assembléia participativa e dinâmica.
O grande impacto estético está na coerência que a obra de igreja deve ter com a mensagem que ela anuncia. A mensagem de amor a Deus, ao próximo e ao planeta estará representada no edifício.
Qualidade ecológica e economia
A qualidade ecológica vem desde a escolha do pré-fabricado na estrutura evitando fôrmas e escoramentos.
As paredes em tijolos de demolição não serão revestidas, conseguindo também rapidez, economia, e conforto térmico.
A ventilação será toda natural e cruzada. E as águas pluviais aproveitadas. O revestimento de piso com borracha, as paredes irregulares de tijolo, a cobertura com telha tipo sanduíche resolverá o problema de acústica. E a centralidade da ação litúrgica diminui a distância entre os leitores, os músicos e a assembléia, evitando o uso de microfone e amplificadores
Ética e preocupação social do edifício
O edifício devolverá dignidade à favela de Heliópolis ao chamar atenção para uma obra eticamente única no contexto dos edifícios religiosos.
Ao se preocupar com os recursos naturais não onerará a comunidade com gastos futuros de energia elétrica e água.
A obra atenderá o conjunto dos moradores da favela, não só o fiel católico, sua área térrea coberta funcionará como uma praça pública para a comunidade tão carente de espaços de lazer.
É previsto o uso de mão-de-obra do local tanto para a construção como para as obras de arte iconográficas. Painéis em mosaico feito a partir de restos de materiais de acabamento estão previstos. O envolvimento da comunidade durante a construção visa que esta se aproprie do espaço como seu.
Descrição do Projeto
Heliópolis é a maior favela da cidade de São Paulo com 100 mil habitantes. O terreno onde algumas pequenas casas foram demolidas mede 12 de largura por 29 de comprimento, 348 m2. A construção ocupará todo o terreno como todas as construções da favela, porém será elevada do solo deixando livre a área térrea que devolve à favela ventilação e paisagem, que estavam escondidas pelos barracos. O térreo será usado como estacionamento e área de lazer para prática de esportes, reuniões, festas e encontros. O salão de culto ocupará o pavimento superior, com um mezanino que aumenta a área da assembléia. A estrutura será em pré-fabricados, pois não há espaço para um grande canteiro de obras e para tornar mais rápida e limpa a construção. As alvenarias são em tijolo de barro maciço de demolição. A estrutura do telhado é metálica, e a cobertura em telhas tipo sanduíche térmico-acústicas. A circulação de ar dentro do salão é natural feita pelas aberturas na cobertura e na base das paredes, e pelos grandes vãos nas fachadas. A iluminação natural se dá pelas aberturas na cobertura e pelos grandes vãos na frente e nos fundos cujo fechamento é feito com tijolos de vidro. Os pilares da construção são recuados para não interferir nas construções existentes que estão nas divisas e são bastante precárias. Para os acessos, rampas com inclinação de 8% e escadas ligam o térreo ao piso superior. O presbitério está localizado de forma longitudinal para que a assembléia possa ficar ao redor do altar de forma mais comunitária e evitar o uso de microfones. O piso do presbitério e dos corredores é em pedral. O piso da nave, rampas e escadas são em borracha reciclada. Duas capelas, do santíssimo e do batismo compõem o espaço como áreas de oração particular. Junto às capelas estão a sacristia, a sala de confissão e a sala de som para a guarda dos instrumentos musicais. No térreo estão localizados os banheiros, a secretaria, uma sala de atendimento e os arquivos. Os pisos da área térrea são de cimentado de alta resistência. A água de chuva será captada pelas calhas embutidas no telhado e serão armazenadas em uma cisterna para uso dos banheiros e para limpeza. O mobiliário da igreja, imagens e objetos de arte serão confeccionados por artistas locais. Dois sinos compõem a fachada. A capacidade total é para 450 pessoas sentadas. A estimativa de custo da obra é de R$ 700.000,00 (setecentos mil reais). O cronograma prevê 240 dias de obra.
Acredito que um dos caminhos para o encontro com o Mistério, é também o da ética refletida no respeito a todo ser humano, a todos os seres vivos do planeta, ao próprio planeta. Ética presente no planejamento bem feito para otimizar os recursos. A estética que agrada os sentidos, a beleza como caminho para o sagrado, surgirá da ética, da simplicidade e, sobretudo, do essencial.
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