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19/05/2009

 

A família brasileira vai a Aparecida!

 

No próximo domingo, dia 24 de

maio, por iniciativa da CNBB, será

realizada a peregrinação nacional em

favor da família ao santuário nacional

de Aparecida. De todo o Brasil, famílias

e organizações pastorais da Igreja

voltadas para a família, acompanhadas

de bispos, padres e religiosos,

colocarão no coração e nas mãos da

Mãe Aparecida as alegrias, angústias

e esperanças das famílias brasileiras,

para pedir bênção, conforto e proteção

à Padroeira do Brasil.

A peregrinação quer ser um manifesto

vigoroso em favor da família,

de sua missão e de suas necessidades,

como já o fizeram os bispos durante

a assembléia da CNBB, em Itaici,

em abril passado. Convido também

as famílias paulistanas, a Pastoral da

Família, os Movimentos e outras organizações

familiares a que se unam,

em romaria e prece, a essa grande

manifestação nacional, em Aparecida.

Quem não for até lá, poderá

acompanhar os romeiros pelos meios

de comunicação, rádio e TV.

Alguém poderia perguntar, por

que a Igreja bate tanto nesta tecla,

fala da família e a defende contra as

ameaças de sua destruição, continuando

a afirmar sua importância? Não

significa isso ir contra a corrente? A

Igreja não vai contra os fatos da realidade,

que mostram que “a família

já era”, ou perdeu sua importância,

sendo substituída por outras formas

de convivência? A Igreja não estaria

“atrasada” no tempo, fechando-se

num conservadorismo cego?

Essas são algumas das observações

que se lêem e ouvem com freqüência;

a Igreja não as ignora, nem

desconhece os problemas concretos

e reais que muitas famílias enfrentam

em nossos tempos. Ela sempre

se interessou pela família e tem

consciência também de que seu discurso,

muitas vezes, vai contra certa

corrente, que não dá importância à

família, ou que pretende substituí-la

por outras formas de relacionamento

e de convivência. E aí a pergunta se

repropõe: por que a Igreja se bate

tanto pela família? Não é uma causa

perdida? Qual é o interesse dela?

Antes de tudo, vamos desmistificar

esse discurso de que “a família

já era”. Ainda existe muita família!

Famílias que vivem bem e estão

felizes, mesmo com as inevitáveis

dificuldades; famílias que lutam

com problemas e crises, mas continuam

acreditando que a família

é fundamental; famílias destruídas,

que se reconstituíram, de alguma

forma, porque sentiram que, apesar

de tudo, ainda é melhor ter família

que não tê-la. A família existe, sim.

E os jovens, mesmo conhecendo

as crises e histórias de frustrações

familiares, continuam namorando,

noivando, casando e sonhando com

uma família bonita e feliz.

A Igreja vê na família uma obra

de Deus e não, simplesmente, uma

invenção da sociedade. É verdade

e que a sociedade e sua cultura vão

moldando a instituição familiar e

lhe dão formatos diferentes ao longo

da história e no desenvolvimento

das civilizações. Mas a família está

inscrita na natureza humana e faz

parte de um desígnio de Deus;

como cristãos, nós o percebemos e

reconhecemos ao longo de toda a

história da Revelação bíblica.

Portanto, a Igreja vê a família

com um olhar de fé, indo além dos

dados objetivos da situação atual

da instituição familiar; ela continua

apontando o desígnio de Deus sobre

a família e sua missão, mostrando

qual é o ideal que deve nortear o

casamento e a vida familiar. Ela não

faz um discurso conformista com a

realidade, mas encoraja, conforta,

abençoa e assiste as famílias em suas

situações concretas. Esta é a missão

da “pastoral da família”. E não conta

apenas com famílias que conseguem

viver plenamente o seu ideal, mas

tem um olhar atento e misericordioso

para todas elas, também às que têm

problemas e histórias difíceis.

Se a família está no desígnio

de Deus, então devemos concluir

que sua razão de ser e sua missão

precisam ser levadas a sério, por

fidelidade a Deus e à sua vontade,

manifestada na criação do homem

e da mulher e na Revelação. Na

verdade, o papel da família é insubstituível

na vida das pessoas, em

todas as fases da vida, da infância

à velhice; em todas as situações da

existência humana, “na alegria e

na tristeza, na saúde e na doença”,

mas especialmente nas situações

de fragilidade, onde o amor gratuito

e generoso é a expressão mais

genuína daquilo que Deus pensou

para a família.

A sociedade, como um todo, e o

Estado não substituem a família. A

família é anterior ao Estado e célula

básica do corpo social; baseada na

própria natureza da pessoa humana

e suscitada pelo amor espontâneo,

ela não existe por imposição da lei

ou pela coerção social. A sociedade

organizada depende muito da família

e conta com ela, mesmo sem

saber ou sem o reconhecer. Dá para

imaginar o que seria da convivência

social se a família desaparecesse de

um momento para outro?!

A Igreja defende a instituição familiar

e pede que o Estado a proteja

e promova mediante leis eficazes e

políticas públicas que favoreçam a

sua estabilidade e o cumprimento

do seu papel social. A sociedade,

como um todo, e o próprio Estado

sairão ganhando mito com isso.

Mas, descuidando a família, muitos

problemas sobrarão para a sociedade

e o Estado. Na peregrinação de

Aparecida, isso e muito mais será

proclamado novamente e colocado

também nas mãos da Mãe e Rainha

das famílias brasileiras.

 

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de S.Paulo

Artigo publicado em O SÃO PAULO, ed, de 19.05.2009

 

 

  

 

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