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05/05/2009

 

Iniciação à vida cristã

 

A 47ª. Assembléia Geral da CNBB, concluída em Itaici no último dia 1º de maio, tratou, entre vários outros temas importantes, também da “iniciação à vida cristã”. A reflexão cabia bem no contexto do Ano Catequético, que vivemos no Brasil, e que se apresenta como mais uma ajuda para que nossa Igreja caminhe nos rumos apontados pela Conferência de Aparecida.

 

Ouvimos sempre falar dos “sacramentos de iniciação cristã”, Batismo, Eucaristia e Confirmação. Na verdade, porém, um verdadeiro processo de iniciação à vida cristã geralmente não acontece, ou apenas acontece um pouco. Por isso temos tantos católicos apenas “nominais”, que nunca foram introduzidos nos “mistérios da fé” e não conhecem sua fé, nem a proposta de vida eclesial, nem têm condições de apreciar a verdadeira beleza e o valor da vida cristã. Não é bem isso que faz falta em nossa Igreja? Por que muitas pessoas abandonam a Igreja? Talvez porque nunca entraram nela, de fato.

 

De fato, a transmissão da fé já não acontece mais “automaticamente”, como talvez acontecia em outros tempos e em lugares do interior. A grande cidade oferece tantas opções e alternativas, sobretudo a de não se ligar a nenhuma Igreja ou prática religiosa... Por isso mesmo, e também de acordo com a proposta do nosso 10º Plano de Pastoral – “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo na Cidade de São Paulo” -, precisamos repensar nossos métodos de missão e evangelização. Os bispos, em Itaici, ao tratarem da “iniciação à vida cristã”, falaram de um novo método de evangelização, mais adequado às nossas condições e necessidades atuais. É a necessária “conversão pastoral” que precisamos fazer.

 

A vida cristã é uma experiência vivida: então as pessoas precisam ser ajudadas a realizar essa experiência de maneira válida e eficaz. É também um caminho: pois então, é preciso empreender o caminho e andar por ele, descobrindo, pouco a pouco, para onde ele leva. A vida cristã é ainda um “discipulado”, uma experiência dinâmica e envolvente; e, como nos recomendou a Conferência de Aparecida, aprende-se a ser discípulo na medida em que se está com o Mestre.

 

A iniciação à vida cristã é um método que se assemelha ao catecumenato dos primeiros séculos da Igreja, que ajudou tantos a abraçarem o seguimento de Cristo e a perseverarem com firmeza na fé, mesmo nas perseguições e no martírio. É um processo gradual e progressivo de evangelização, de conhecimento de Jesus Cristo, de envolvimento com ele e com a comunidade eclesial, na qual se vai entrando passo a passo. Vale para quem já foi batizado, mas não evangelizado; e vale ainda mais para adultos que ainda não foram batizados e o desejam.

Esse método coloca diante dos olhos o mistério de Deus, que se manifesta no mistério de Cristo, caminho, verdade e vida, Aquele que tem “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Jesus é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem e está no centro de nossa experiência de fé cristã. Nós não nos relacionamos com teorias e verdades abstratas, mas com a pessoa de Jesus Cristo, crucificado, morto e ressuscitado. E o papa Bento XVI, em Aparecida, nos recordou mais uma vez que não nos tornamos cristãos por causa de uma grande idéia, ou por um ideal de perfeição moral, mas por causa de Jesus Cristo, uma pessoa real, o Filho de Deus vindo ao mundo.

 

Há muitos anos, a Igreja no Brasil já tem o Rito de Iniciação Cristã para Adultos (RICA), que é um itinerário catequético-litúrgico aprovado e comprovado, de muita beleza e eficácia. Catequese e liturgia estão entrelaçados estreitamente e esse método põe em prática aquilo que sempre se recomenda: que a catequese não atinja apenas a parte intelectual da pessoa, mas a ajude a experimentar os “mistérios da fé” celebrados e vividos na comunhão com Deus e a prática do discipulado. O RICA está desde já disponível para ser utilizado, depois de bem examinado e estudado.

 

Claro está que o uso adequado de uma metodologia nova de evangelização requer a formação de evangelizadores bem preparados e capazes de serem os “pedagogos” da fé para seus irmãos, introduzindo-os com caridade e paciência na vida cristã. Os catequistas são, especialmente, esses discípulos missionários que ajudam outras pessoas a se achegarem a Cristo. E terão grande recompensa de Deus por isso. A iniciação cristã de adultos, porém, requer uma preparação própria e não deve ser improvisada. O próprio Pároco deve interessar-se por acompanhar esse processo de perto

 

Para sermos uma Igreja em estado permanente de missão, precisamos inovar em nossos métodos de evangelização; caso contrário, continuando simplesmente nosso ritmo, atingiremos sempre menos pessoas. O Documento de Aparecida cita a advertência do Papa Bento XVI a respeito dos riscos de uma pastoral de mera conservação: “nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade mas, na verdade, a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez” (Doc. de Aparecida nº 12). E não é isso que queremos para a Arquidiocese de São Paulo!

 

 Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de S.Paulo

 

Artigo publicado em O SÃO PAULO, ed, de 05.05.2009

 

 

  

 

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