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20/04/2010

 

Vocações em tempo de crise

 

O quarto Domingo da Páscoa, apenas celebrado, é conhecido como o Domingo do Bom Pastor; continuando os anúncios pascais, a Igreja proclama: Jesus Cristo ressuscitado é o Pastor bom, que entregou sobre a cruz sua vida pelas ovelhas e se tornou a fonte da vida em plenitude para toda a humanidade. Quem o acolhe, nele crê e segue seus passos, encontra a vida e, um dia, tomará parte no banquete da vida eterna.

 

Esta é uma “boa nova” para toda a humanidade, também para aquelas “ovelhas” que ainda não estão no aprisco do bom Pastor; conforme o trecho do Apocalipse, lido na Missa nesse Domingo, gente de todos os povos, tribos, línguas, raças e nações - uma multidão que ninguém pode contar -, será conduzida às fontes da água da vida pelo “cordeiro imolado”, que também é o pastor de todos (cf Ap 7,9.14-17).

 

Jesus, Pastor bom, continua a agir no mundo, chamando a si e conduzindo toda a humanidade e cada pessoa, de muitas formas; muito especialmente, através da Igreja, que envia ao mundo para prolongar sua missão pastoral através dos tempos; também através daqueles que na Igreja foram constituídos “pastores” para, em seu nome, chamar, conduzir, servir e defender o rebanho do Senhor contra todos os falsos pastores, os lobos e os ladrões, que ameaçam, dispersam ou desviam as ovelhas. Por isso, nesse Domingo do bom Pastor, também foi celebrada a 47ª. Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. A Igreja reza e pede para que não faltem continuadores autênticos da missão do bom Pastor.

 

A Mensagem do papa Bento XVI para esta ocasião está relacionada com o Ano sacerdotal: “o testemunho suscita vocações”. Embora o chamado seja, acima de tudo, fruto da ação gratuita de Deus, ele também é favorecido pela qualidade do testemunho pessoal e comunitário daqueles que já são padres e exercem o ministério sacerdotal. Muitos padres podem confirmar isso. Eu mesmo senti o desejo de ser padre, estimulado pelo exemplo de vida sacerdotal de um velho missionário, que era pároco do lugar onde morava minha família. Antes que ele falecesse, ainda pude convidá-lo para ser meu padrinho de ordenação, o que o deixou muito feliz. Vários outros jovens do lugar também entraram no seminário e ficaram padres, estimulados pelo exemplo dele.

 

Isso, de resto, é confirmado pela experiência histórica da Igreja: já no começo, são discípulos entusiastas e arrebatados por Jesus, que chamam outros e os apresentam a Ele (cf. Jo 1,41-42). Quantos despertaram para a vocação sacerdotal porque foram marcados pelo exemplo e o testemunho de um outro padre! Quantos seguiram o exemplo de Inácio de Loyola, de Dom Bosco, de Filipe Néri, de São João da Cruz... Poderíamos discorrer sobre todos os fundadores de Congregações ou Fraternidades sacerdotais, que confirmam este mesmo princípio: o testemunho de vida sacerdotal suscita novas vocações. E ainda hoje isso também acontece.

 

O papa Bento XVI, em sua Mensagem, enumera alguns elementos fundamentais que devem marcar a vida sacerdotal: a amizade com Cristo, com quem se aprende a “estar na companhia de Deus”; a entrega total da vida a Deus, que se traduz, depois, na entrega total e jubilosa aos irmãos, confiados ao ministério pastoral do padre; e o testemunho de sincera comunhão fraterna com os outros padres, que é a característica dos discípulos de Cristo (“nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” Jo. 13,35). Tudo isso pode despertar em outros jovens o desejo de viver de forma semelhante também.

 

Em tempos de divulgação de escândalos sobre comportamentos sacerdotais, poderia vir a tentação de calar, de não dizer mais falar sobre a vocação sacerdotal... Com tanta notícia ruim sobre “padres”, que efeito poderia ter uma reflexão sobre a vocação sacerdotal? Essa seria a lógica derrotista... No entanto, devemos continuar a falar, a viver e a testemunhar de forma alegre e humilde a fidelidade do sacerdócio, tornando conhecidos os exemplos de santos sacerdotes. Não esqueçamos que a vocação é, acima de tudo, fruto da graça de Deus; e lembremos também: na história da Igreja, foram justamente os tempos de crise os mais fecundos no surgimento de novas vocações e iniciativas frutíferas para a formação sacerdotal. Aprendamos com São Paulo: “onde o pecado foi abundante, a graça de Deus foi superabundante!” (cf Rm 5,20).

 

 

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 27.04.2010

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

 

 

 

 

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