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13/03/2010

 

Economia e vida: uma questão ética

 

A Campanha da Fraternidade é promovida todos os anos no Brasil pela Igreja Católica durante a Quaresma, período de 40 dias de preparação para a Páscoa; neste ano, porém, ela é realizada de forma ecumênica, com a participação de 5 Igrejas cristãs reunidas no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). O tema - economia e vida - aborda a questão crucial das atividades econômicas, pelas quais passa a construção da cultura da solidariedade.

 

Não é intenção nem competência da Campanha da Fraternidade debater teorias e técnicas de gestão econômica; ela propõe uma reflexão sobre aquilo que move, ou que deveria mover a economia: o serviço à vida. A questão é atual e não interessa apenas aos teóricos de sistemas econômicos e seus estudiosos, nem somente aos gestores das políticas econômicas ou administrativas: Toda pessoa é um agente econômico, quando trabalha, produz, consome,  investe, ganha, compra, vende, gasta. A questão de fundo, posta pela Campanha da Fraternidade, é ética e pode ser traduzida nesta pergunta: A economia está a serviço da vida, ou da morte?

 

Em 2009, Bento XVI levantava esta mesma questão na encíclica Caritas in Veritate (A caridade na verdade), refletindo sobre o desenvolvimento dos povos no contexto do mundo atual, sobretudo tendo em vista a recente crise econômica e financeira. Também Paulo VI, na famosa carta encíclica Populorum progressio (O desenvolvimento dos povos), já havia insistido que o desenvolvimento, para ser verdadeiro, deve ser integral e precisa beneficiar todas as pessoas e a pessoa inteira, em todas as suas dimensões. Mais de 40 anos depois, quando a humanidade alcançou um alto grau de globalização, Bento XVI constata que  estamos longe de alcançar este ideal; apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, ainda existem camadas sociais e povos inteiros vivendo na miséria, atingidos pela fome, doenças endêmicas e pelo analfabetismo.

 

Hoje o número dos deserdados do progresso é bem maior do que nos anos sessenta. Aquilo que o papa observa, também nós podemos constatar: A globalização dos mercados, dos sistemas financeiros e das comunicações sociais aproxima-nos cada vez mais, mas não nos faz mais irmãos (cf n.19). Os efeitos de morte da economia são constatáveis na permanência da miséria e da fome de muita gente, na dívida externa impagável de países pobres, no uso irresponsável dos recursos naturais a ponto de causar a destruição da natureza.

 

Por que acontece isso? Teoricamente, todos podem ter acesso às mesmas oportunidades e tecnologias; todos estão envolvidos pela mesma onda globalizante, mas alguns permanecem na miséria e outros se projetam para posições privilegiadas, inatingíveis para o comum dos mortais. Por qual motivo o progresso tecnológico não realiza, por si só, o bem comum de todos? Seriam as profundas desigualdades sociais e econômicas reinantes no mundo uma fatalidade insuperável? Deveríamos tranqüilizar-nos, concluindo que se trata de marca indelével da condição humana, que nunca será cancelada, sendo por isso inútil lutar por uma ordem econômica mais justa e uma sociedade mais fraterna e solidária? Se aceitássemos tal hipótese, também estaríamos negando, ipso facto, a dignidade básica comum de todos os seres humanos e abriríamos uma brecha cômoda  para justificar todas as formas de discriminação.

 

A hipótese da desigualdade social e econômica insuperável não pode ser aceita. Uma sociedade de classes estratificadas e impermeáveis seria aberrante, um verdadeiro choque para a consciência. Da mesma forma, é inaceitável a hipótese de uma sociedade igualitária imposta pela força, mediante o cerceamento da liberdade pessoal. Experiências históricas recentes mostraram que o igualitarismo forçado fere a dignidade humana, impõe a todos o paternalismo de Estado e se torna causa de apatia geral, inibindo o dinamismo criativo das pessoas. Mas, certamente, existe a possibilidade de desenvolver relações econômicas entre pessoas, sociedades e países, que se orientem pelo respeito à vida e à dignidade humana e por critérios de verdadeira justiça e solidariedade, bem como pelo respeito à natureza, de cujos recursos dependem a maioria das iniciativas econômicas.

 

A Campanha da Fraternidade lembra um princípio que nunca deveria ser esquecido: a pessoa e a promoção do bem comum têm a primazia sobre o lucro e o acúmulo individualista e devem, por isso, estar no centro de toda atividade econômica. Vale uma verdadeira inversão de posições: Não é a pessoa que está a serviço da economia mas, ao contrário, a economia  deve estar a serviço da pessoa. O ser humano é o valor maior e sempre deve ocupar o primeiro lugar. O dinheiro e o lucro são necessários e, em si, não são um mal, mas o uso que deles se faz pode ser distorcido e mau. O  papa Bento XVI, na encíclica já citada acima, recorda-nos que o lucro não deve o objetivo supremo e último da atividade econômica, mas um meio orientado para um fim, isto é, para a promoção do bem comum. O lucro, visado como fim exclusivo, pode destruir a riqueza e criar a pobreza (cf n. 21). Bastaria aqui analisar a origem e os efeitos da recente crise financeira e econômica mundial.

 

Uma economia a serviço da vida, portanto, deverá integrar a ética da solidariedade e da responsabilidade social: não pode ser bom, do ponto de vista ético, algo que seja vantajoso para mim, mas traga prejuízo aos outros. Pensar, planejar e agir solidariamente. Os “outros”, neste caso, são todos os atuais ocupantes do nosso planeta, mas também as gerações que ainda virão depois de nós; ficaria mal deixar-lhes apenas os ossos do banquete da vida...

 

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

 

Artigo publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 13.03.10

 

 

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