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Artigos e Pronunciamentos de Dom Odilo Scherer |
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23/02/2010
Carta aos Sacerdotes - Missão de Cristo Sacerdote
Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer Arcebispo de São Paulo
São Paulo, 23.02.2010 Para todos os padres na Arquidiocese de São Paulo
Estimados padres, Por meio desta, tenho a alegria de saudar a todos vocês e faço votos que estejam bem; apenas iniciamos o ano pastoral e já nos encontramos na Quaresma, “tempo favorável” e especialmente rico para a evangelização, mas também, de intenso trabalho para todos. Peço que Deus os abençoe, fortaleça e faça frutificar abundantemente a semeadura feita com esforço e generosidade na messe de Cristo. Os presbíteros são constituídos, pelo sacramento da Ordem, ministros de Jesus Cristo, profeta, sacerdote e pastor. Nesta carta, dentro do Ano Sacerdotal, desejo refletir com vocês, especialmente, sobre o múnus santificador inerente ao nosso ministério sacerdotal. O rito da ordenação diz, de forma muito significativa, que o presbítero “é configurado ao Cristo, sumo e eterno Sacerdote” e consagrado para ser “verdadeiro sacerdote da nova Aliança”. Esta “configuração” com Cristo indica que no padre deve aparecer a “figura” de Cristo, da sua identidade e de seu poder em favor do povo; indica ainda que o padre, na sua pessoa e no seu agir, está consagrado a Deus, como Cristo. “Revesti-vos de Cristo”, escrevia São Paulo; se isso vale para todos os fiéis, tanto mais vale para os presbíteros! Naturalmente, esta configuração com Cristo não é mérito nosso, mas dom e graça de Deus, sublime ideal para o qual devemos tender sempre durante nossa vida. Quanto mais santos formos no exercício do ministério, mais semelhantes a Cristo e configurados com ele nós seremos. O rito da ordenação traz ainda esta exortação: “Exercei em Cristo a função de santificar”. E vai dizendo em quê consiste esta função: em celebrar os sagrados Mistérios por meio dos Sacramentos, sobretudo a Eucaristia; em unir o sacrifício espiritual dos fiéis ao sacrifício de Cristo, para o louvor de Deus; em conduzir os fiéis à comunhão com Deus e estimulá-los a expressar essa comunhão na vida diária; em rezar pelo povo, implorando sobre ele a misericórdia de Deus e sendo, pessoalmente, “assíduos no dever da oração” . As palavras da ordenação indicam bem aquilo que a Igreja confia a cada sacerdote através do sacramento da Ordem. Não falta o encorajamento para que o padre honre na própria vida tão sublime dom recebido: “Toma consciência do que fazes e põe em prática o que celebras para que, ao celebrar o mistério da morte e ressurreição do Senhor, te esforces por mortificar teu corpo, fugindo aos vícios para viver uma vida nova”. O sacerdócio ministerial é um serviço de caridade em favor dos fiéis, que deve ser exercido com verdadeira alegria; é sublime vocação e missão, que nos enche de ação de graças, mas também de profundo respeito e senso de responsabilidade perante Deus e os fiéis. Caros padres, minha impressão geral sobre as celebrações litúrgicas na Arquidiocese de São Paulo é boa e me alegro por isso. Neste Ano Sacerdotal, no entanto, permitam-me recordar-lhes novamente a importância do “bom exercício” do múnus sanctificandi em relação aos fiéis, confiado a nós. A celebração dos “divinos mistérios” é serviço ao povo, não a título pessoal, mas por encargo da Igreja e em nome dela. Celebrando os Sacramentos ou presidindo outras celebrações, lidamos com “coisas santas” e, por isso, nossa atitude pessoal deve ser de profunda fé e expressar isso; não fazemos apenas ritos exteriores mas, por chamado de Deus e em nome de Cristo, Sumo Sacerdote, presidimos o povo sacerdotal nas suas relações com Deus. Através do nosso ministério, o povo é santificado por Deus; não é mérito nosso, mas graça recebida, tratamos de realidades que nos superam. Recomendo, sobretudo, celebrar bem a Eucaristia; e celebrar todos os dias, mesmo com a presença de pouca gente. Nós celebramos sempre pelo povo, mesmo que ele esteja fisicamente ausente. Fomos ordenados sacerdotes para presidir o povo sacerdotal em nome de Cristo sacerdote, para rezar pelo povo e com ele; e também para ensiná-lo a rezar. A oração é exercício da fé, expressão da fé, relação de diálogo e comunhão com Deus. “Lex orandi, lex credendi” (a maneira de rezar expressa o modo como cremos). A oração pessoal e litúrgica do padre expressa também o modo como ele entende e vive o sacerdócio. Lembremos que o povo é edificado na fé quando vê o padre rezando. Ensinar e estimular o povo a rezar faz parte do nosso ministério. Por outro lado, recordo que a Liturgia é “um bem da Igreja”, e não um exercício privado de oração; por isso mesmo, ela é regulada pelo Magistério da Igreja e suas prescrições devem ser observadas; os rituais prescritos e aprovados não devem ser trocados arbitrariamente por fórmulas ou textos não previstos pela Igreja. As fórmulas aprovadas para a validade e liceidade dos sacramentos não devem ser deixadas de lado, pois seria lesar a boa fé e o direito dos fiéis, como também o próprio bem da Igreja. No altar não deve faltar o Missal; o decoro do lugar e dos objetos usados na Liturgia expressa o apreço, ou não, que temos pelas ações da Igreja que realizamos. Igrejas desleixadas e sujas podem ser sinal de pouca fé em relação àquilo que elas representam e àquilo que nelas se faz. Evidentemente, não estou a recomendar nenhum ritualismo estéril, mas a dar vida e significado às fórmulas, ações e ritos previstos mediante a boa celebração. A boa celebração litúrgica não precisa ser “enfeitada”, rebuscada ou “recheada”... Uma vez que a Conferência Episcopal tem a competência de dar orientações e indicações para a Liturgia no País, lembro que o Diretório da Liturgia, da CNBB, é texto e referência obrigatória para a Liturgia em todo o Brasil e não deve faltar em nenhuma sacristia e casa paroquial. São especialmente importantes e úteis as breves orientações que aparecem logo no início do Diretório, até mesmo para a formação básica dos agentes da pastoral litúrgica nas comunidades. Antes de terminar, ainda duas coisas: a orientação e recomendação dada por mim, meses atrás, sobre a comunhão preferivelmente na mão, a suspensão da saudação da paz na Missa e outras, diziam respeito a surto de gripe então existente. Uma vez que aquela situação está superada, ficam também superadas aquelas orientações. Quanto à recepção da Sagrada Comunhão por parte dos fiéis (na mão, na boca, de joelhos ou em pé), sejamos respeitosos do desejo legítimo dos fiéis, conforme a Igreja recomenda. Por fim, refiro-me ao retiro anual de todo o clero da Arquidiocese, de 8 a 12 de março próximo, em Itaici; é um momento alto do ano Sacerdotal e recomendo que todos os padres participem; durante os dias do retiro, sejam suspensas as missas e outros compromissos dos padres nas paróquias; façam-se celebrações da Palavra de Deus presididas por ministros leigos, ou diáconos. O povo deve ser avisado e convidado a rezar pelos padres em retiro. As inscrições precisam ser feitas logo (o prazo já está encerrando) nas respectivas Regiões Episcopais. O retiro é obrigatório para os padres do clero secular; e os padres do clero religioso, sobretudo os que desempenham funções pastorais na Arquidiocese, como nas paróquias, são também convidados e nos darão muita alegria com sua presença, participação e testemunho de comunhão. Convido-os também, desde agora, para a celebração da Missa do Crisma e da renovação das promessas sacerdotais, na Catedral da Sé (toda a Arquidiocese), na quinta feira santa, às 900h. Que Deus os abençoe e assista na vivência da Quaresma e na preparação da Páscoa do senhor. Saúdo-os com afeto e os abençoo! São Paulo, na memória litúrgica de S.Policarpo, bispo e mártir, 23 de fevereiro de 2010.
Cardeal Dom Odilo P. Scherer Arcebispo de São Paulo
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