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28/01/2010

 

Carta aos Sacerdotes - Formar os Leigos

 

 

 

 

 

 

 

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

      Arcebispo de São Paulo

 

 

São Paulo, 28.01.2010

Para todos os padres

na Arquidiocese de São Paulo

 

Estimados padres,

 

Tenho a alegria de saudá-los com mais esta carta no ano sacerdotal, fazendo votos de que estejam bem e com boa disposição para iniciar o novo ano pastoral.

 

No dia 25 de janeiro passado, durante a celebração da solenidade patronal da arquidiocese, na Catedral da Sé, convocamos o laicato para a realização do 1º Congresso Arquidiocesano de Leigos. Na mesma ocasião, nomeamos e encarregamos a Comissão Central do Congresso e sua Equipe Executiva; também promulgamos o Regulamento, que deve orientar os trabalhos do Congresso ao longo do ano. Tudo está no site da Arquidiocese, para ser conhecido e divulgado. Desejo que o Congresso envolva amplamente o laicato, suscitando uma nova consciência dos leigos a respeito de sua dignidade e condição na Igreja, de sua participação na vida e na missão na Igreja; como fruto do Congresso, esperamos o despertar de muitas iniciativas novas de formação, organização e atuação missionária do laicato na Igreja e na cidade de São Paulo. De fato, para sermos uma “Igreja discípula e missionária de Jesus Cristo na cidade de São Paulo”  (10º Plano de Pastoral), a participação criativa e dinâmica do laicato é indispensável.

 

Para isso, no entanto, conto com a participação muito interessada do clero; caros padres, recomendo que também estudem a proposta do Congresso, como vem expressa no Regulamento; notem que a 1ª etapa é paroquial e local, dependendo muito do apoio, incentivo e encorajamento que os pastores darão aos leigos em suas paróquias e comunidades, ajudando-os a realizarem as ações propostas pelo Congresso.

 

Será uma ocasião única para retomar a formação do laicato e para estimulá-lo a se organizarem, em função de sua participação na vida e na missão da Igreja. O Congresso é ocasião também para retomar os grandes textos referenciais do Magistério da Igreja sobre os leigos, como a Lumen Gentium, a Apostolicam Actuositatem (Vaticano II), a Exortação Christifideles laici, de João Paulo II, e os Documentos da CNBB sobre o mesmo tema. E não deixemos de retomar o Documento de Aparecida (cf n. 209-215), nas suas reflexões importantes sobre os leigos – “discípulos missionários de Jesus Cristo”. O Doc. de Aparecida, citando Puebla (n. 786), usa a definição bonita de leigos, como “homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja” (DAp. 209). Graças a Deus, temos muitos leigos atuantes no âmbito interno da Igreja!

 

Mas, como observa ainda a Conferência de Aparecida, existe um déficit notório do testemunho claro de católicos leigos na grande sociedade; e é justamente nas “realidades da ordem temporal” (Concílio) que o cristão leigo é chamado a exercer sua missão: na família, na educação, na atuação profissional, no mundo do trabalho e da economia, no exercício das responsabilidades sociais e públicas, bem como na elaboração da cultura inspirada nos valores do reino de Deus. Nesses âmbitos percebemos uma grande ausência do laicato católico, que acaba sendo absorvido mais por uma idéia “laica” de sociedade e cultura, onde se quer a separação total entre fé e vida. Mas não é esta a posição da Igreja, nem vai por aí o mandato de Jesus a seus discípulos: fazer brilhar a luz do Evangelho e introduzir o sal e o fermento do reino de Deus nas realidades do mundo.

 

É sumamente desejável e necessário que tenhamos uma nova geração de leigos bem formados, atuando em todos os campos da vida social e cultural da sociedade; leigos e leigas com consciência de discípulos de Cristo, que conheçam a fé, a moral e a doutrina social da Igreja, capazes de tomarem posição, como discípulos de Cristo, e sem medo ou vergonha de assumirem sua identidade católica e adesão eclesial num mundo pluralista, onde todos podem afirmar e defender suas próprias convicções e colocá-las a serviço da convivência social. E o que temos a compartilhar com a sociedade é bom, construtivo e dignificante! Os católicos leigos não deveriam, simplesmente, amoldar-se ao “pensamento corrente”, mas ser capazes de oferecer sua contribuição para enriquecer o horizonte do pensamento e da cultura, através de uma postura cristã católica coerente com o ensinamento da Igreja.

 

Nossa grande tarefa é formar bem os leigos; é missão pastoral primordial nossa. Lembramos bem quantos leigos foram formados pela Ação Católica?! E quantos deles se destacaram à frente da sociedade e ainda hoje se destacam? Paulo VI, quando foi bispo de Milão, teve a preocupação de formar um bom grupo de lideranças leigas, que acabaram atuando e influenciando na vida pública e cultural italiana por mais de 50 anos! Por falar nisso, nas comunidades e paróquias, existem iniciativas de formação do laicato? Como estamos preparando os leigos para serem “discípulos missionários” no mundo social e cultural vasto e complexo em que vivem e atuam? A “velha geração” dos leigos bem formados está se extinguindo e sentimos falta de uma nova geração deles. Este é um ano oportuno para iniciar algo; ainda que não sejam atingidos todos os leigos da paróquia, é importante formar bem um grupo em cada paróquia.

 

Portanto, desejo mais uma vez encorajar vivamente os padres a apoiarem e promoverem o Congresso de Leigos em suas paróquias, bem como pedir que promovam iniciativas eficazes de formação dos leigos em suas comunidades paroquiais. Não nos tranqüilizemos com a idéia de que “este é um assunto para os leigos”...  É, antes de tudo, missão nossa, de pastores do povo de Deus!

 

Antes de finalizar, recordo mais uma vez o retiro para todo o clero da Arquidiocese, de 8 a 12 de março próximo. È o retiro do Ano Sacerdotal e a participação de todos é muito importante. Não sejam motivos banais a motivar a ausência do retiro, cujas inscrições deverão ser feitas através das Regiões Episcopais. Será um grande momento no Ano Sacerdotal e uma bênção para todo o clero.

 

Com alegria, transmito a todos a especial saudação e Bênção Apostólica do Papa Bento XVI, com quem tive a graça de um breve encontro no dia 22 de janeiro. Penso em todos vocês e estou especialmente unido na oração e no afeto pastoral aos padres idosos e  doentes, ou aos que passam por dificuldades.  Que os santos sacerdotes intercedam por nós. O Santo Cura de Ars seja estímulo e exemplo para todos no serviço a Deus e ao povo! Deus abençoe a todos!

 

São Paulo, na memória litúrgica de S.Tomás de Aquino, grande presbítero e doutor da Igreja, 28 de janeiro de 2010.

 

 

 

Cardeal Dom Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

 

 

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