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Artigos e Pronunciamentos de Dom Odilo Scherer |
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18/01/2010
Dra. Zilda, grande mulher, exemplo de leiga
Em viagem, e ausente do Brasil, fiquei consternado com as notícias sobre o devastador terremoto que atingiu o povo do Haiti no dia 12 de janeiro. Causou-me tristeza e pena pensar nas milhares de pessoas mortas debaixo dos escombros das casas destruídas; entre os que perderam a vida, também estão o arcebispo de Porto Príncipe, dezenas de sacerdotes e religiosos. Pensei nos milhares de feridos, no povo aterrorizado, nas dificuldades para atender a todos numa situação tão complicada como aquela que se cria depois de uma catástrofe semelhante, com a falta de comunicações, de energia, de água potável, com as estradas e ruas interrompidas, os hospitais e estruturas sanitárias igualmente destruídos ou impraticáveis... E tudo isso, num país muito pobre, onde já em tempos normais todas essas estruturas conseguem atender, apenas de maneira muito precária, as necessidades básicas da população... Só mesmo uma grande ação de solidariedade internacional é capaz de levar socorro e alívio à população haitiana, duramente atingida com a tragédia. Felizmente, as primeiras reações da comunidade internacional são alentadoras. Tragédia na tragédia, também Dra.Zilda Arns Neumann, irmã de nosso muito estimado Cardeal Dom Paulo, co-fundadora e, por muitos anos, coordenadora nacional e internacional da Pastoral da Criança e, agora, também da Pessoa Idosa, perdeu a vida no terremoto. Encontrava-se no Haiti em missão, para estimular os religiosos a organizarem e dinamizarem a Pastoral da Criança naquele país, onde há muita necessidade desta iniciativa de solidariedade social. Ela perdeu a vida junto com tantas mães e crianças pobres, a quem queria, justamente, levar socorro e solidariedade, para que vivessem melhor. A morte trágica de Dra. Zilda colheu a todos de surpresa. De repente, no Brasil todo, e não só aqui, muitas pessoas tiveram a sensação de terem perdido alguém importante da família, da irmã ou da própria mãe. Sim, para milhões de mães brasileiras e também não-brasileiras, ela não foi somente a Doutora Zilda, mas também a irmã solícita e protetora; para milhões de crianças, ela foi a mãe carinhosa e atenta à sua vida frágil, para que esta pudesse desabrochar num sorriso bonito, cheio de saúde e esperança. Dra. Zilda, depois de criar seus próprios 5 filhos e de se tornar viúva, passou a doar sua vida pelos filhos dos outros, através da Pastoral da Criança. Era sua formação profissional, como pediatra; era sua sensibilidade humana, como mulher e mãe. Se o Brasil ostenta hoje números menos deprimentes de mortalidade infantil, deve-o em grande parte ao trabalho da Pastoral da Criança, presente em todo o País e em espaços onde nem o Poder Público chega. Ela não se cansava nem desanimava diante dos imensos desafios para promover a saúde e a vida digna das crianças pobres e de suas mães. Tinha uma visão larga sobre a dignidade da pessoa e queria ajudar pessoas concretas com necessidades específicas, sem distinções de raça, religião, condição social ou ideologia. Soube buscar e estabelecer parcerias frutuosas com o Poder Público. Nunca deixou instrumentalizar a Pastoral da Criança por interesses políticos mesquinhos, nem se deixou instrumentalizar. Batalhadora, ela soube despertar e organizar uma frente de voluntariado sem precedentes no Brasil. Desencadeou um trabalho sério, consciencioso e de baixíssimo custo, mas de enorme efeito multiplicador e alta eficácia. A Pastoral da Criança é, sobretudo, um trabalho eficaz de educação de base, voltado para as necessidades e cuidados primários da vida, desde a gestação saudável dos filhos, os cuidados neonatais e durante a primeira infância, quando são colocadas as bases essenciais da vida e da educação da pessoa; o aleitamento materno, os cuidados com a higiene e a alimentação, a capacitação para o uso dos recursos simples e ao alcance de todos para solucionar problemas corriqueiros da saúde, como o soro caseiro para combater a desidratação e a “multimistura”, para a subnutrição. Dra. Zilda era uma mulher de fé. Cultivava a sua mística na participação da Missa, na oração e na sua participação responsável na vida e na missão da Igreja. Foi uma discípula missionária de Jesus Cristo. Movida por esta sua fé e ouvindo a Palavra de Deus e da Igreja, foi que ela se entregou, com todas as suas capacidades e a energia própria de sua personalidade, a esse trabalho social tão valioso, voltado para a maternidade e a infância pobre, “para que todos tivessem vida em abundância”. Que Deus recompense Dona Zilda; que ela possa ouvir estas palavras confortadoras de Jesus, que teve um amor de predileção pelas crianças: “Tudo o que fizeste a um desses pequeninos, foi a mim que o fizeste. Agora vem participar da alegria do teu Senhor!” (cf. Mt 25). E que a Pastoral da Criança continue a produzir muitos frutos! O exemplo de Dra. Zilda, uma cristã leiga, inspire a muitos outros leigos a fazerem como ela: vivendo com convicção e alegria a própria fé, colocar os dons recebidos a serviço da vida e da esperanca do próximo.
Card. Dom Odilo P. Scherer Arcebispo de São Paulo 17.01.10
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